domingo, 27 de fevereiro de 2011

Todos os dias de manhã dou por mim respirar como se tivesse acabado de nascer.
E, se nos primeiros dias isso me assustava, hoje encaro como o que é na realidade: 
Um renascimento. 
Renasci. 
A vida preparou-me para este renascimento.
Tirou-me o que me machucava.
Deu-me o que me completa.
E ela (a vida) não foi carinhosa ao fazê-lo, mas ainda bem. 
Não percebi de imediato o significado de tudo,
Como nunca percebo devido a extrema necessidade de sofrer intensamente,
Esquecendo-me de apenas confiar e ter fé.
Pelo caminho, fui perdendo capacidades e quando dei conta estava longe de onde começara. 
É verdade, o caminho tem tantos cruzamentos e desvios... 
Optar faz parte a cada minuto que passa. 
Mas quando essas opções são feitas sem respeito por nós mesmos, 
Sem ouvirmos o que o nosso Ser nos diz, nos perdemos. 
E foi assim que andei, perdida. 
Pior,
Todos os passos que dei em frente, recuei. 
Tudo isto sem passar pela casa da partida, do despejo... 
Via apenas o que me punham à frente... 
Diziam-me, e eu desistia... de mim.
Os sinais eram os mesmos. 
As palavras conjugavam-se em diferentes tempos mas sempre com uma verdade e sincronicidade assustadoras.
Quando, ao fim de tanto tempo perdida, despertei. 
Abri os olhos e lá estavam todos, tal como sempre estiveram à minha espera. 
Tal como eu os deixara. 
E quando pensava que o regresso à "casa" era impossível... 
Eis que a vida me trouxe de volta, 
Em braços, 
E colocou-me junto aos que amo.
Retornei à mim.
Cheguei finalmente.

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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011


A vida é mesmo assim, por vezes  nos afasta do nosso propósito,  nos enrola como se fosse uma gigante onda do mar que quando nos larga na areia nos deixa  inconscientes.
Com o tempo ganhamos forças, retomamos a respiração e levantamos.
À minha volta todos os que eu sabia estarem à minha espera e mais alguns que o Universo me ofereceu para que eu saiba que Ele não faz as coisas por acaso e que tudo tem uma razão de ser.
Percebo tudo agora.
E sim, sou parte deste Todo que me envolve, que me alimenta, que me guia e ilumina.
Os caminhos do Amor regressaram à minha e à vida de quem os quiser comigo partilhar.


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terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

"Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos.
A alegria como quando se sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração  estava de boca entreaberta: 
Eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo.
Falavam e riam para dar matéria peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. 
Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles.
Então a grande dança dos erros. 
O cerimonial das palavras desacertadas. 
Ele procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no entanto. 
No entanto ele que estava ali. 
Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. 
Tudo só porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. 
Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. 
Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram. 
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para que a carta chegue...
E quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios... 
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos."

Clarice Lispector

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